Ni hao [你好]

“Oi” é um ponto de partida.

7–11 minutos

Das areias quentes do litoral Atlântico, a Ásia sempre pareceu muito distante — não só geograficamente. No meu contexto imediato, a hegemonia da cultura Ocidental era total, com overdoses de Disney, New York e Hollywood, fossem esses destinos, conteúdos ou matrizes de referência. Quando comecei a “escolher” (o mimetismo ali, inconsciente), o foco foi a Europa, depois a América Latina, a África e o Oriente Médio. Cheguei a ir à Oceania e bati na porta da Ásia quando escolhi, para a primeira viagem paga com meu próprio dinheiro, a Turquia. E, assim, eu andei pelo mundo por quase 40 anos sem nunca pisar na maior massa terrestre do planeta.

Novo Mapa da República da China Dividido por Províncias [中华民国分省新图], publicado em 1933 pela editora cartográfica Ya Xin Di Xue She. Imagem: Library of Congress (EUA).

A Ásia entrou no meu imaginário viajante como uma moda turística de atravessar o seu Sudeste, em alguma combinação de Indonésia, Tailândia, Vietnã, Camboja e Laos. Amigos mais exóticos se lançaram em viagens espirituais para a Índia, Butão e Tibete. Depois minha mãe foi ao Japão, de onde voltou “traumatizada” com os valores, dizendo que foi a viagem mais cara que ela já tinha feito. Então veio a vez da filha da minha prima introduzir para a família os efeitos do soft power sul coreano (quando percebi, eu já estava vidrada em uma competição coreana de xamanismo, tarô e saju).

Nesse tempo todo, não é como se a China passasse despercebida; eu sabia uma boa medida de história antiga, colonial e moderna chinesa, tinha um imaginário relativamente rico da sua diversidade e complexidade. Eu só não enxergava a China como um lugar que eu precisava conhecer, urgentemente.

Parece óbvio, mas, para ir à China é preciso, primeiro, assumir um compromisso. O movimento e a decisão que o precede, não são atos banais. É por isso que a filósofa, escritora, cineasta e crítica de arte nova-iorquina, Susan Sontag (1933-2004), começa o ensaio “Projeto para uma viagem à China” [“Project for a Trip to China”] com a assertiva: Eu vou para a China.

A empreitada requer — muito mais do que se imagina — uma jornada interna, quanto externa. Uma viagem antes da viagem. E o texto de Sontag, publicado em 1973 na revista The Atlantic Monthly, é leitura obrigatória para quem quer ou não ir para a China. No caso, Sontag sempre quis.

Será que ir para a China é como ir para a lua? Eu te conto quando eu voltar. Será que ir à China é como nascer de novo? […] Eu vou visitar um lugar inteiramente outro que eu mesma. Se é o futuro ou o passado não precisa ser decidido de antemão.

Susan Sontag em sua mesa de trabalho, circa 1971. No fundo, é possível ver a obra “Mao” de Roy Lichtenstein. Imagem: Jim Cartier/Photo Researchers History/Getty Images (EUA).

Fato é que a alteridade é sentida mesmo antes de se chegar até lá. A China é muito grande, muito complexa para um estrangeiro entender, decreta Sontag. Mas não é só uma questão de tamanho; se fosse, a frase seria igualmente verídica para os cinco maiores países do mundo. Entre Rússia, Canadá, China, EUA e Brasil, os dois primeiros até preservaram algum grau de diversidade sob a vastidão gelada, enquanto os Estados Unidos planificaram e plastificaram sua cultura em produtos de todo tipo. Sob esse olhar, o Brasil e a China se aproximam: o Brasil também parece muito grande, muito complexo para qualquer um entender; como brasileiros, não somos estranhos à amálgamas indescritíveis e aos fenômenos e sentidos que escapam o vocabulário.

Como ocidentais, porém, a China apresenta desafios que não encontramos num Estados Unidos ou Canadá. O primeiro — ou talvez mais óbvio — é o Hanzi (汉字 / 漢字), sistema de escrita chinês, que atravessa todo o desenvolvimento da comunicação e pensamento. Em 2012, quando viajei à Moscou e São Petersburgo com minha mãe, uma das minhas principais lembranças é o pavor que ela tinha de pisar fora do hotel sem guia, porque ninguém falava inglês e o alfabeto “parecia grego”. No caso, era o cirílico (azbuka) e o que a assustava era o mero fato de ser um outro alfabeto que não o latino. Ocorre que, apesar das diferenças, todos esses são alfabetos, compostos por um número pequeno de letras (o latino, 24; o grego tem 23; e o cirílico, 44), tornando o seu reconhecimento possível, mesmo que você não saiba o que está lendo.

Na China, além de poucos falarem inglês, o Hanzi é um sistema logográfico: formado por símbolos ou grafemas que representam uma palavra ou ideia ou conceito. Para uso cotidiano, são entre 2.500 a 3.500 caracteres; registrados, são mais de 50.000. Além disso, a relação entre escrita e língua também não é direta, permitindo que cada logograma seja pronunciado de formas diferentes em línguas diferentes, como o mandarim e o cantonês. Por isso, em 1958, o governo chinês, já sob comando comunista, desenvolveu o Hànyu Pīnyīn [汉语拼音], que transcreve os fonemas dos caracteres usando o alfabeto latino para ensinar a pronúncia oficial. (Eles também desenvolveram a versão simplificada do Hanzi para tornar a escrita mais acessível.) O objetivo original era facilitar e padronizar a alfabetização da população em mandarim, mas o Pīnyīn facilitou também o aprendizado para nós, ocidentais. Depois veio a tecnologia e, hoje, é possível conversar ao vivo com uma pessoa chinesa usando seu celular com tradutor simultâneo. Seja como for, duas coisas são certas:

1) A comunicação — seja ela escrita ou falada — deve ser um desafio bem-vindo numa viagem, obrigando o viajante a recorrer à leitura dos olhares, expressões e gestos do outro e à boa e velha mímica; e

2) Começar este diário falando de comunicação — especialmente a escrita — é um meta-exercício proposital.

O Hanzi possui uma história antiga que envolve uma série de tradições milenares preciosas (o pincel, a tinta, o papel, a caligrafia e seus estilos, os selos, a gravura e impressão, a filosofia, a poesia, os manuais), que detalharei em posts específicos. Mas cabem, aqui e agora, algumas notas introdutórias sobre suas origens lendárias e seus primeiros registros reais.

Retrato de Cangjie (倉頡) da coleção “Retratos de governantes sucessivos e seus súditos”.
Fonte: Biblioteca Nacional da Dieta (Japão).

Na mitologia chinesa {LINK PARA POST}, a invenção da escrita é atribuída à Cāngjié (倉頡), homem com dois pares de olhos que serviu como historiador oficial e ministro do Imperador Amarelo, ou Huángdì (黃帝), por volta de 2500 AEC, mais de quatro mil anos atrás. Na época, informações eram registradas por meio de nós em cordas, em um sistema semelhante ao quipo (khipu) usado pelos Incas na América Latina. Insatisfeito com as limitações do método, o Imperador ordenou Cangjie a inventar a escrita.

O processo de criação, que varia conforme a versão do mito, sempre envolve a imersão de Cangjie na natureza, observando e derivando a escrita de fenômenos e elementos naturais, e das pegadas e vestígios de animais. Os quatro olhos simbolizam sua capacidade de ver além e mais profundamente, enxergando padrões subjacentes da realidade.

Os efeitos transformadores dessa invenção também são representados simbolicamente no mito, comovendo os céus e os espíritos. Em algumas versões, a invenção causou uma chuva de grãos (milheto/painço), como presente celestial aos humanos; em outras, os espíritos do bem e do mal passaram a temer a humanidade, que agora possuía a palavra escrita e o poder de registrar a verdade.

De fato, a escrita revolucionou a China, impulsionando o desenvolvimento econômico, social e cultural, mesmo que só tenha ocorrido um milênio depois.

Com base em registros arqueológicos, os vestígios mais antigos de escrita na China datam de 1340–1250 AEC, durante a dinastia Shang (c. 1600–1046 AEC). Caracteres primitivos foram encontrados gravados em “ossos de oráculos” (cascos de tartaruga, escápulas de boi, entre outros), que eram usados para divinação, como a previsão de futuro ou revelação de conhecimentos ocultos.

Na dinastia Zhou (c. 1046–256 AEC), o uso da escrita evoluiu rapidamente para produções mais complexas, incluindo o influente e místico I Ching (易經), ou “Livro das Mutações”, cujas primeiras versões datam entre c. 1150-750 AEC, e os 300 poemas do Shi Jing (詩經), de c. 1.000–900 AEC. Meio milênio mais tarde, por volta de 600 AEC, a escrita já aparece mais estruturada e complexa, utilizando outros suportes que também refletem avanços tecnológicos significativos: tecidos de seda (700–501 AEC), ripas de bambu (500–401 AEC) e estelas de pedra (300–200 AEC).

Entre 600 e 221 AEC, as chamadas “Cem Escolas de Pensamento” (诸子百家) produziram o Daodejing ou Tao Te Ching (道德經) de Laozi em c. 500 AEC e os Analectos (论语) de Confúcio, c. 400 AEC, entre outras filosofias e religiões. Esse período fértil também resultou no Kao Gong Ju (考工記), ou “Registro de Ofícios”, primeiro manual robusto de inúmeras tecnologias, incorporado aos chamados “Ritos de Zhou” (周禮), c. 400–300 AEC; o Suan Shu Shu (算數書) ou “Livro de Números e Computação”, refletindo conhecimentos matemáticos da época e datado de c. 200–186 AEC; e o Huangdi Nejing (黃帝內經), texto fundamental da medicina tradicional chinesa, foi escrito ao longo de séculos e consolidado em c. 200-100 AEC. Por fim, o Shiji (史记), ou “Registros do Grande Historiador”, de Sima Qian, obra pioneira na história geral e biográfica da China, escrita em c. 109–91 AEC.

Inscrições em “ossos de oráculo”, feitas na China por volta de 1200 AEC.
Fonte: Cambridge University Library (EUA).

Este diário é um processo que começa com a viagem antes da viagem. A proposta é registrar todas as abas, frentes, dimensões, estratégias, dicas e vivências envolvidas na organização e realização da minha ida para a China. O material é para mim, mas quem sabe ele faz sentido para mais alguém.


Antes que a injustiça e a responsabilidade se tornassem tão claras, e estridentes, viagens míticas eram para lugares fora da história. Ao inferno, por exemplo. […]

Agora tais viagens são inteiramente circunscritas pela história. Viagens místicas para lugares consagrados pela história de pessoas reais, e pela sua própria história pessoal. O resultado é, inevitavelmente, literatura. Mais do que conhecimento.

Viagem como acumulação. O colonialismo da alma, qualquer alma, não importa quão bem intencionada. […]

Não entre em pânico. Mas para continuar a viagem, nem colonialista nem nativa, requer criatividade. Viagem como deciframento. Viagem como descarrego. Eu vou levar uma mala pequena, e nem máquina de escrever, nem câmera, nem gravador. […]

Quão impaciente eu estou para partir para a China!

— Susan Sontag em “Projeto para uma viagem à China” [“Project for a Trip to China”], 1973, tradução minha

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