O caos como origem, a ordem como invenção
A história de Georges Lemaître, o astrônomo belga e padre católico que propôs a Teoria do Big Bang e seu “átomo primordial” entre 1927 e 1931, é por si só impressionante. Mas antes dele e de suas referências, existiu a China Antiga, o maior caldeirão fervilhante de ideias geniais que a história do mundo já viu. Mais de mil anos antes de Cristo, astrônomos vivendo na dinastia Shang já especulavam que o universo era amorfo, infinito e não sólido, teoria referida como Xuanye. Alguns séculos depois, sob influência do Taoísmo, popularizou-se a ideia de que a Terra boiava numa espécie de plasma ou água (Qi), como a gema na clara de um ovo.
Afinal, o que existia antes do início? Em um mito taoísta, antes do tempo e do espaço, não havia nada, só um vazio infinito e indescritível, sem forma nem atributos (Dao). Durante milênios, esse estado pré-histórico do universo se agitou e fundiu um ovo cósmico que continha o caos primordial: uma sopa feita de toda a matéria e a energia existente. Essa fonte vital (Taiji) é o princípio dos princípios, do qual flui toda a existência em uma dualidade fundamental, yin e yang.
Nota: para algumas vertentes Taoístas, do Taiji fluíram, não só o dualismo yin-yang, mas os Três Tesouros ou Sanbao (Jing, Qi e Shen); os quatro pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste); e os cinco elementos ou (Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água). Vale também destacar que Jing, ou “Essência”, é a fundação física e genética ou base da vitalidade; Qi, ou “Energia”, é a força e o fluxo vital; e Shen, ou “Espírito”, é a consciência emocional dessa força e vitalidade.
Ao longo de 18 mil anos, essa dualidade lentamente entrou em equilíbrio, gestando o primeiro ser: Pángǔ ou Pan Ku (盤古); cuja representação física mais difundida é a de um gigante peludo com chifres e aspectos primitivos. Ao acordar, Pángǔ quebrou o ovo e criou o universo/mundo, separando a Terra (yin) do Céu (yang). Em algumas versões do mito, ele usa um machado para rachar o ovo ou para rasgar o caos, separando Céu e Terra. Detalhes à parte, é um ovo cósmico de fontes e fluxos vitais que de repente eclode no universo — o que é isso senão o Big Bang?

Pángǔ sustentou a separação do Céu e da Terra com o próprio corpo e, para isso, precisou crescer uma determinada medida várias vezes por dia. Em algumas versões do mito, Pángǔ é auxiliado nessa tarefa árdua pelas Quatro Bestas Sagradas (四靈獸), que representam virtudes e pontos cardinais: a Tartaruga, que simboliza força, imortalidade e resistência, é o Norte; o Qilin, a sabedoria, serenidade e benevolência, identifica-se com o Oeste; a Fênix, como renascimento, graça e harmonia, é o Sul; e o Dragão, símbolo de poder, majestade e prosperidade, é o Leste.
Após outros 18 mil anos nesse esforço monumental, a morte de Pángǔ deu origem aos outros elementos fundamentais da Terra:
- Sua respiração se tornou o vento, a névoa e as nuvens;
- Sua voz, o trovão, e seu suor e lágrimas, a chuva;
- Seu olho esquerdo virou o Sol e o direito, a Lua;
- Sua cabeça e membros se tornaram as montanhas;
- Sua carne, as terras férteis;
- Seus ossos e dentes, as rochas e minerais;
- Seu sangue, os rios, lagos e mares;
- Seus pelos se espalharam e viraram as estrelas no céu, e as árvores na terra; e
- Suas pulgas, são hoje os animais (em algumas versões, a humanidade é resultado dessas pulgas, em outras, simplesmente não somos criados por Pángǔ).
Embora referências à Pángǔ tenham sido encontradas em tumbas da dinastia Han Oriental (25-220 EC) em províncias distantes entre si, como Sichuan e Shandong, os registros escritos mais antigo deste mito datam do período dos Três Reinos (220–280 EC), depois da queda da dinastias Han. O mito aparece em duas obras de Xu Zheng, oficial do reino Wu Oriental: Sanwu Liji (三五歷紀) ou “Crônicas dos Três Soberanos e Cinco Deuses”; e Wuyun Linian Ji (五遠歷年紀) ou “Crônica dos Cinco Ciclos do Tempo”. Originais destas obras não resistiram ao tempo e sobrevivem apenas citações e transcrições de séculos posteriores, como no Yi Wen Lei Ju (藝文類聚), ou “Enciclopédia de Coleções Literárias”, escrito em 557-641 EC, na dinastia Tang; no Yunji qiqian, uma antologia do “Cânone Taoísta” de 1016-1029, compilada na dinastia Song; e no Yi Shi (绎史), outra enciclopédia publicada em 1670, na dinastia Qing.


Fonte: Smithsonian Institution (EUA).

No entanto, é razoável supor que o mito não foi criado por Xu Zheng, mas apenas registrado por ele a partir de tradições orais mais antigas. No entanto, a vasta disseminação de versões do mito entre dezenas de etnias em mais de 20 províncias e “Regiões Autônomas”, cobrindo 15.000km, dificulta a determinação de suas origens étnicas e geográficas.
Por isso, existem pelo menos três teorias sobre a região de origem do mito de Pángǔ: na Índia ou Oeste Asiático, assumindo que o mito surgiu no período dos Três Reinos, no mesmo momento em que o Budismo Indiano se espalhava pela China; no Sul da China, onde localizava-se o antigo reino de Wu Oriental, assumindo que Xu Zheng colheu o mito na região em que vivia; e na Planície Central da China, onde o pesquisador Ma Huixin, pesquisador com mais de nove meses de trabalho de campo no tema, acredita ser. Entre os que concordam com Ma Huixin, há quem aponte as Montanhas Tongbai, na fronteira entre as províncias de Henan e Hubei, como seu provável local de origem. A área está profundamente ligada ao místico e misterioso reino/estado de Chu, do qual falaremos em outras oportunidades.
Livros como Mitos de Criação Chineses (中国创世神话), de Tao Yang e Zhong Xiu (1989), O Deus Pángǔ (盘古神) de Ma Huixin (1993) e Mitos e Histórias Mitológicas da China (中国神话故事) de Ma Changyi (1996) reúnem versões do mito de Pángǔ colhidos junto aos povos Yi, Bai, She, Lisu, Gelao, Buyei, Dong, Maonan, Tujia, Tu, Yao e Miao, além de chineses Han. A disseminação entre esses povos, que hoje ocupam majoritariamente a metade sul da China, é explicada pela migração voluntária e forçada desses povos que ocupavam originalmente regiões mais ao norte, incluindo a Planície Central.
Sobre a etimologia de Pángǔ, há quem diga que significa “Enroscado” (Pan) e “Antigo” (Gu), em chinês, fazendo referência à sua posição fetal dentro do ovo; enquanto outros defendem ser uma palavra da língua Miao, na qual significaria “Avô Velho”. Há, porém, versões muito semelhantes a esse mito, mas que não se referem especificamente à Pángǔ, sugerindo que a história em si pode preceder o nome que acabou se popularizando para o ser cósmico e primordial. Entre esse, muitos expressam ligações ao totemismo, mística de parentesco, ancestralidade ou aliança entre determinado povo e um elemento da natureza, geralmente um animal ou planta, chamado de “totem”; e/ou ao animismo, crença na transformação fluida entre homem e elemento da natureza, em vida ou após a morte. É o caso do povo Yi, para o qual um tigre assume o lugar de Pángǔ; e de uma canção do povo Miao que atribui a origem dos elementos da terra à uma árvore de bordo ou ácer (“maple tree”).

É certo, porém, que o mito de Pángǔ está intrinsicamente relacionado à cosmologia tradicional chinesa e ao Taoísmo, permeado por conceitos presentes do I Ching, como o yin e yang e a numerologia (como no trecho “começando com um, erigidos em três, se estabelecem em cinco, prosperam em sete e se estabilizam em nove”). Por isso, suas origens podem remontar ao período de Primaveras e Outonos (770–476 AEC), quando o I Ching já teria se disseminado e o Taoísmo, que desdobra essa cosmologia em filosofia, teria sido desenvolvido por Laozi — ou Lao-Tsé — no livro Tao Te Ching, supostamente escrito na província de Henan. Na numerologia citada, o mito de Pángǔ parte de “um” e torna-se “três”, formando uma trindade entre Céu, Terra e Humano (Pángǔ); enquanto outras mitologias mais sofisticadas lhes dão seguimento, como nos lendários “Três Soberanos e Cinco Imperadores”.
Embora eu vá mergulhar futuramente em outros mitos selecionados e no fascinante tema do Taoísmo, por ora vale apenas destacar um último elemento: o livro de futurologia da dinastia Tang (618-906 EC), o Tu bei tu (推背圖). Origem de grande parte das imagens de Pángǔ, que aparece sempre como a primeira de suas 60 ilustrações, o Tui bei tu é uma obra baseada nos 64 hexagramas I Ching que prevê grandes eventos históricos desde a dinastia Tang até a “Grande Harmonia do Mundo”. Cada imagem é acompanhada por um hexagrama, uma profecia e um poema regulamentado (ou ode). Segundo a lenda, o livro foi compilado por Yuan Tiangang e Li Chunfeng, após preverem a ascensão de Wu Zetian como Imperatriz durante a dinastia Tang. Minha versão favorita da lenda diz que Li teria então começado a fazer cálculos “por capricho” e “inesperadamente” calculado “o destino da China por mais de 2.000 anos”, parando apenas porque tomou um empurrão nas costas de Yuan Tiangang, temendo que os segredos do por vir, na verdade, não deveriam ser revelados.
Tudo isso me interessa demais: o caos primordial, a dualidade fundamental e os fluxos vitais; o ovo e o espiral ou enroscamento; a numerologia divinatória; o mistério e confusões sobre a origem (de qualquer coisa), sua disseminação e variações infinitas; e, claro, toda a narrativa em torno do sacrifício de um ser primordial e criador, que forma uma trindade entre si, o céu e a terra, ao invés de um Deus que testa e se aborrece com as próprias criações e forma uma tríade com seu filho e um espírito. É estarrecedor e inebriante a consciência que possuíam da natureza, do universo e do tempo e a acuracidade com a qual a China Antiga encarava a existência, antecipando ideias que o Ocidente só alcançou milênios depois ou ainda não entendeu.
“No tempo do caos,
uma massa de gás girou pelo universo,
acelerando até formar um ovo cósmico.
O ovo um dia abriu e dele fluíram três:
um subiu e virou o céu,
o outro desceu e virou a água,
e outro ficou no meio, virando a terra.
De repente, uma flor brotou na terra,
com uma mulher dentro.
Ela é a ancestral: Meh Loeggyap.”
— Mito do povo Zhuang, tradução minha
publicado no livro Collected Materials of Primordial Religions of Chinese Ethnic Groups
(中國各民族原始宗教資料集成), editado por Lü Daji et al., 1996
REFERÊNCIAS SELECIONADAS
“PanGu Creating the World“, série Chinese Mythology Explained, no canal ArtMiz Media, 2023.
“China’s Creation and Origin Myths“, editado por Mineke Schipper , Ye Shuxian e Yin Hubin, 2011.
“The Rhinoceros Totem and Pangu Myth: an exploration of the archetype of Pangu“, de Wu Xiaodong, na revista Oral Tradition, 2001.
Exemplares do “Tu bei tu“, de datas diversas, na Library of Congress, EUA.
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