Estratégia / 战略

O conceito de estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie…
Os senhores estão anotando?

9–13 minutos

Não sou fã do filme Tropa de Elite (2007), mas essa frase sempre me pegou. Na cena, a frase é lida repetidamente pelo sargento protagonista durante um treinamento policial de madrugada, como um teste para os soldados se manterem acordados. Sob a camada de humor, a cena, na verdade, reflete o aspecto menos glamuroso do pensamento estratégico: o famoso “saco” (em bom português) ou a dedicação, a atenção e a paciência necessárias para se enfrentar situações ou processos complexos e longos, sejam eles chatos ou amedrontadores. Entre os aspectos mais sexy, estão a adaptabilidade, a inteligência (processamento mental rápido, multidimensional e referenciado) e a visão ou leitura de contextos e cenários, que exige sair de si, pensar com a mente dos outros e enxergar além do seu próprio espaço-tempo.

Para nós, ocidentalizados, a raiz do termo é grega: strategos (στρατηγός), de stratos (multidão, exército) e agein (conduzir, liderar). E se não fosse pelo lendário Sun Tzu, que viveu na China e escreveu A Arte da Guerra entre 544 e 496 AEC, todas as principais referências de estrategistas seriam de ascendência europeia, como Alexandre, o Grande; Napoleão Bonaparte; Winston Churchill. [No mundo feminino, sempre escanteado por historiadores, a China e o mundo colecionam vários exemplos, de Fu Hao à Artemísia de Halicarnassus, de Theodora à Nzinga Mbande, de Isabella I de Castilha à Catarina, a Grande, e por aí vai.]

Nota: Sun Tzu introduziu e desdobrou a importância vital da informação, da flexibilidade e da dissimulação nas relações de conflito, partindo da premissa de que toda guerra é baseada no engano e vivendo pela máxima de que o ápice da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.

Conhecer o inimigo e a si mesmo é a única forma de garantir a vitória; se você só se conhece, sofrerá uma perda a cada vitória; e se você não conhece nem a si, nem ao inimigo, é derrota certa.

Maiores Estrategistas da História

A Arte da Guerra de Sun Tzu, mais antigo, no Manuscrito Yinqueshan, c. 134–118 AEC
Jarra (zun) de vinho em forma de coruja de bronze da tumba de Fu Hao, c. 1200 AEC
Estátuta de Artemísia de Halicarnassus encontrada na Turquia, c. 350 AEC
Mosaico da imperatriz Theodora na Basílica de San Vitale, Itália, c. 547 EC
Nzinga, rainha de Ndongo e Matamba (Angola), imaginada por Achille Devéria, 1830

Na China, o conceito em mandarim mais próximo à noção ocidental de estratégia é Móulüè (谋略), de Móu (谋, planejamento, ardil, deliberação, conspiração sutil ou estratagema) e Zhì (智, sabedoria/inteligência), traduzindo-se mais ou menos como “pensamento estratégico”, no sentido macro ou mais amplo. O pensamento estratégico chinês nasceu da fusão de três grandes correntes filosóficas que integraram as “Cem Escolas de Pensamento” e predominaram, cada uma da sua forma, a partir da unificação do império em 221 AEC: o Legalismo (Fajia), o Confucionismo e, meu predileto, o Taoísmo (ou Daoismo). Predominante durante a dinastia Qin (221–206 AEC), o Legalismo infundiu na China uma visão pragmática e realista sobre poder, gestão, recompensas e punições, controle de recursos e a centralidade da eficiência do Estado. Já o Confucionismo, perseguido pelos Qin mas adotado oficialmente em 141 AEC pela dinastia Han (206 AEC-220 EC), deu à China um forte senso disciplinar e moral, calcado no respeito à hierarquia e cujo objetivo único e final era uma ordem social harmoniosa. Por fim, a contribuição do Taoísmo, que surgiu na mesma época mas só atingiu seu auge no século 8 durante a dinastia Tang (618-907 EC), foi menos objetiva e mais impactante.

A filosofia taoísta entende que a estratégia deriva do fluxo natural do mundo, o Dao. Um bom estrategista não força a realidade, ele age (ou não age) em confluência com as propensões e fluxos naturais das coisas, o Shi (势). O Shi, que pode ser traduzido como a energia potencial acumulada em uma situação ou contexto, é aliado ao Wu Wei (无为), que pode ser entendido como “ação sem atrito” ou “não ação imperativa”, para moldar as circunstâncias moldando-se à elas, atingindo o resultado desejado como se ele fosse inevitável. Uma metáfora clássica de Sun Tzu descreve uma pedra redonda no topo de uma montanha: o estrategista não empurra a pedra com a mão; ele cria as condições para que a pedra role sozinha pela força da gravidade. Outros dois conceitos centrais são o Ji (计), ou estratagema tático, que coloca a dissimulação no topo da cadeia da inteligência; e, claro, o yin e yang (阴阳), a dualidade intrínseca a tudo, afastando dogmatismos em prol da fluidez, mutabilidade e adaptação.

Nota 2: Não confundir o Shì (势), propensão, força gravitacional ou energia potencial de um contexto, com o Chi/Qì (气), que é a força vital, sopro primordial, a energia ou animus interno de cada pessoa, a substância que anima a vida e o universo.


Nota 3: Fruto da aplicação do pensamento taoísta às artes marciais, o Tai Chi Chuan (太极拳) tem uma máxima que eu amo: “Quatro liangs (gramas) movem mil jiangs (quilos)”, ou Sì liǎng bō qiān jīn (四两拨千斤). Não só gosto pelo conceito, mas porque na história da China, a frase se provou verdadeira diversas vezes.

Frente de robe taoísta, século 18. Imagem: The Metropolitan Museum.
Detalhe das costas de robe taoísta, século 17. Imagem: The Metropolitan Museum.

Viajar à China exige estratégia, planejamento e método. Diferente de outros países, lá, a maioria das coisas mais legais para fazer não podem ser resolvidas na hora, escolhidas no dia, pois, se não escolher e comprar com antecedência, você simplesmente não vai. Pensar a viagem à luz dos aprendizados postos, significa:

  1. Conhecer a mim mesma seria listar tudo que eu gosto ou me interessa na vida e conhecer o “inimigo”, nesse caso, a China, significa que preciso saber mais sobre onde estou indo, antes de ir.
  2. Ter clareza sobre meus propósitos, objetivos e prioridades com essa viagem é a única forma de realmente decidir o que fazer e, principalmente, o que não fazer (estratégia é saber gerenciar conscientemente recursos escassos, nesse caso tempo e dinheiro, para determinado fim).
  3. Entender que o planejamento é parte da estratégia, mas o importante, acima de tudo, é manter-se sempre em confluência com o Shì, ou seja, ficar atento e aberto ao improviso e à espontaneidade, mudando de planos e acertando a rota diante da realidade, seja ela uma inconveniência ou uma oportunidade.

O QUE EU GOSTO

História, artes e artesanatos, arqueologia, arquitetura, línguas e escritas, natureza, culinária, caminhar pelos lugares, tradições e tecnologia, música, moda e expressões culturais no geral.

SOBRE A CHINA

Minha pesquisa sobre a China está refletida neste diário, como no post História, mas também envolveu assistir filmes e ler literatura chinesa, ficar horas a fio online em rincões da internet, etc. <3

MEUS OBJETIVOS

Ser totalmente atravessada pela China, ter momentos de exaustão e de descanso, ver coisas milenares, pensar sobre o futuro do mundo, namorar, comprar coisas legais, comer bem.


Métodos para planejar a viagem

Eu sou de uma época em que a gente comprava guia de viagem na livraria; e isso era uma das minhas coisas favoritas de fazer, fosse para uma viagem certa ou apenas sonhada. Hoje, eu sou a primeira a dizer que o modelo clássico do guia de viagens não faz mais sentido, mas o seu substituto genérico — a internet — requer métodos para navegação, discernimento e melhor aproveitamento.

Minha guerra pessoal com a internet, especialmente como fonte principal para se planejar uma viagem, é a mentalidade que predomina nessa “grande vitrine” condenada à intermediação por telas. Por um lado, ela é ótima: infinita, atualizada, diversa; por outro, ela é péssima: achata, plastifica, superficializa, esteticiza, dissimula e desalma tudo e todos.

Tudo vira “conteúdo” ou gira em torno do “instagramável“; tudo é atravessado por uma venda ou por um ego. Até quem parece “denunciar” (“o que ninguém te conta”, “o que você não vê”) é formatado por uma linguagem que almeja clicks, likes, viralizar. O turismo, em si já problemático, agora reduzido a looks combinando (ou em contraste) com cenários. É um perigo navegar inesgotáveis fotos e vídeos que nos fazem esquecer que estamos vendo uma realidade editada e muitas vezes enganosa, além dos altíssimos níveis de ignorância e desinformação.

Seda com inscrições e pinturas de três sábios estudando o símbolo yin-yang, acompanhados por três crianças e um cervo, século 18. Imagem: British Museum.

Reclamações feitas, resta resumir meu método para lidar com sites, vídeos (YouTube) e redes sociais (Instagram, TikTok) na hora de planejar uma viagem:

  1. Pesquisa exploratória -> Comece sem rumo, com buscas gerais no Google e YouTube sobre o seu destino, com a intenção de identificar não só lugares, aspectos culturais e temas de interessa, mas fontes de informação de qualidade para você aprofundar, vá anotando tudo que for absorvendo e vá mapeando tudo que você gostar (no meu caso resultou neste GoogleMaps).
  2. Pesquisa direcionada -> Desdobre suas anotações com buscas específicas no Google, YouTube e outras redes sociais sobre locais e assuntos identificados, mapeie e consuma filmes e documentários, literatura e outros acervos culturais, como tentar localizar peças artísticas e de patrimônio nacional do seu destino.
  3. Base do roteiro -> Rascunhe uma estrutura de roteiro com seus principais lugares de interesse, comece a delinear o itinerário entre eles, o que fica no caminho e o que parece menos viável de cobrir;
  4. Aprofundamento -> Volte em cada item do roteiro e torrar tempo pesquisando detalhes diversos, como lugares específicos, onde comer, oficinas e lojas, entre outros usando as fontes citadas e, nessa etapa, usei bastante também o AMAP (explico melhor esse e outros aplicativos chineses neste post).

MINHAS FONTES

-> Playlist do YouTube com seleção de vídeos úteis, entre os quais há apenas dois canal de vlogueiros: Pasta & Panda e Little Chinese Everywhere.

-> Seleção de cinema no Letterboxd com filmes que assisti e mexeram com meu imaginário sobre a China, com licença para os desenhos animados ocidentais.

-> Lista literária com livros que li, estou lendo ou vou ler sobre a China, avisando desde já que poucos tratam da China comunista/contemporânea.

AVISOS IMPORTANTES

Simplesmente não viaje para lá nas temporadas de pico nem feriados nacionais, olhe o calendário!

Muitos destinos são traiçoeiros, parecendo antigos ou reais, mas foram totalmente refeitos (Datong) ou criados (Wangxian) para o turismo.

Na China, há milhares de opções para tudo e é difícil procurar “o melhor” disso ou daquilo, invista em pesquisa e na conexão com o Shì.


Dúvidas cruéis e processos decisórios

Saia de mesa chinesa com estampa de jardim de outono, século 18.
Imagem: The Metropolitan Museum.

Aceitar que o sofrimento é inevitável estranhamento é uma forma eficaz de evitar o sofrimento. [Algo na linha do que dizem os Budistas sobre o dukkha.]

Fato é que a China é um destino para múltiplas viagens, como o Brasil e outros países grandes e diversos. Como tratamos no primeiro post, existem também barreiras diversas ligadas ao idioma e à escrita que são sentidos já nessa fase de planejamento. E, mesmo que você não lide com um interesse obsessivo por tudo e um possível TDAH (o hiperfoco mandou abraços) como eu, qualquer viagem para a China vai exigir escolhas drásticas diante de muitas opções maravilhosas.

O jeito é acreditar no método para chegar em um roteiro base e ir afunilando suas dúvidas, resolvendo as mais cruéis a partir de critérios práticos e, no meu caso, mantras internos de que um dia vou voltar à China (sendo que eu nem foi ainda).

PILARES DECISÓRIOS

Tempo -> no nosso caso, usamos os 31 dias de viagem do visto automático para brasileiros em 2026.

Logística -> encadeamento de destinos e trajetos factíveis, dias necessários para cada lugar.

Variedade -> revisão e escolhas que evitem “variação do mesmo tema” ao longo da viagem, pois cansa.

Grana -> tirando a passagem até lá, a China oferece transporte e hospedagem de qualidade à preços acessíveis, mas quase todas as atrações são pagas.

Cortes finais -> deixar de fora o que faria sentido como “outra viagem inteira” no futuro; revisar o fluxo da viagem, garantindo tempo para curtir as coisas e dar chance ao inesperado.

O QUE FICOU DE FORA

-> Províncias de Gansu e Xinjiang, com seus vastos desertos atravessados pela “Rota da Seda”, onde ficam joias como as Cavernas Mogao, e foi a região que mais doeu para cortar da viagem.

-> Província de Yunnan e a subida pro Tibete, empatados com a acima em maior dor pelo corte, onde há locais/culturas únicas e interessantíssimas.

-> Província de Guangdong, onde ficam Hong Kong, Macau, Shenzhen e vilas fofas como Foshan e Shawan; e Taiwan, ilha onde ficam Taipé, com a história nacionalista e peças de arte que eu adoraria ver, além de praias.

-> Províncias de Jiangxi, Anhui e Jiangsu, com vilas ricas em tradições arquitetônicas e artesanais; e províncias de Hubei e Henan, berço do antigo reino Chu, do Taoísmo, entre outros interesses meus.

Deixe um comentário